O meu namorado é um dos maiores gatos da escola. Podem chamar-me de sortuda ou de azarada. Isso depende do contexto. A vantagem? As outras garotas ficam com inveja e por muito mau que isto possa parecer, isso me faz sentir poderosa e notada, não que isso me faça feliz, a não ser que estejamos a falar de alguém como Ashley, a VMP (Vadia Mais Popular) da escola. As desvantagens? Sempre tem uma garota ordinária “cof cof Ashley cof cof” dando em cima dele. Não só ele mas sim todos os rapazes à minha volta.
Esclarecendo aqui a situação, eu não sou popular, mas tenho o meu grupo de amigos e Ashley sempre está presente, nos perseguindo. Parece até aquela chiclete nojenta que gruda no seu pé e não quer mais sair. É, perfeita comparação, mas infelizmente, a presença dela não incomoda os meninos.
Brian é um rapaz legal e famoso por suas conquistas. Eu gosto dele e a gente já tem um rolo desde o ano passado. Eu não chamo o que a gente tem de namoro porque na verdade eu não sei o que a gente tem. Não começámos do modo mais normal. Estava numa festa quando ele veio até mim e me beijou. Temos ficado desde então. Ele nunca me pediu em namoro, mas sempre me tratou por “sua garota” quando dava os seus ataques de ciúmes. Acho que isso significa alguma coisa, certo?
Eu posso ser muito ingénua às vezes, e aproveitem porque é raro eu admitir isto para quem quer que seja, até Joseph! Eu sei que posso me machucar com o que tenho à minha volta, mas prefiro simplesmente mostrar que não me importo com o que acontece.
Isso é o que eu tenho feito nesses últimos dois meses. Dois meses desde que Brian foi parar em um acampamento maldito de verão cheio de monitoras gostosas andando de shortinho que dá pelo meio da metade da coxa magricela. Eu tento mostrar que não tô nem aí para o fato dele não ligar nem mandar mensagem de texto e nem responder aos meus e-mails ou tentativas de contacto através do msn. Ele sumiu durante dois meses e eu tenho que fingir que não me importo.
— Oi gata. — Falou o desgraçado me puxando pela cintura. Senti que ele nos virava e senti-o encostar-me na parede enquanto me puxava para um beijo.
O beijo dele já foi melhor do que é agora, mas eu não podia dizer-lhe isso. Não importava de qualquer jeito. Quando ele se cansou de colocar a língua na minha garganta, partiu para o meu pescoço, beijando levemente. Ele fazia aquilo para me excitar? Não estava resultando.
Abri meus olhos e vi Joseph do outro lado do pátio com o resto da galera, bem na nossa frente. Ele olhava para a gente fixamente e sua cara não tinha uma expressão feliz. Estava mais para fúria misturada com algo que eu desconhecia. Quase que sorri para ele, mas vi a Ashley chegando e tomando conta de todo o espaço. É claro que Sophie e Miley reviraram os olhos pela falta de paciência e essa eu não aguentei e ri.
Brian deve ter pensado que tinha descoberto algum ponto fraco e passou a chupar em vez de beijar. Eu sentia a baba dele na minha pele e ao mesmo tempo não sentia nada. Era frustrante!
— Brian. — Chamei afastando-o. — Estamos no meio da escola. — Aquilo era a desculpa mais esfarrapada que eu podia ter inventando. Eu nunca me importei em me pegar com ele em algum canto.
— Claro, logo você, né? — Perguntou rindo sarcástico enquanto me agarrava de novo.
— Como assim logo você? — Perguntei afastando-o brutalmente, mostrando-me ofendida. Qual era a dele afinal?
— Ah Demetria, você nunca se importou que eu te agarrasse pela escola. Vai começar agora? — Perguntou irónico. Já estava irritando.
— Eu tenho um jantar com meu pai esta noite. Acha que ele vai gostar de ver as marcas no pescoço? Não me parece! — Disse quase explodindo de raiva.
— Então, você pode dizer que é uma lembrança minha. Você sabe que eu adoro o meu sogro não sabe? — Sério, eu queria espancar esse idiota. Concordo com o Joe agora. Aproximei-me dele e coloquei uma mão em seu ombro, virando-o para um poste que estava perto do meu grupo de amigos.
— Acho que esse acampamento não fez bem a você. Está vendo aquele poste ali? Aquela coisa de ferro e sem vida? — Perguntei. Ele assentiu e eu sorri falsamente. — Vá falar com ele e me deixa em paz.
Saí andando e ouvi-o me chamar. Deixei-o no vácuo e desta vez ele gritou.
— O acampamento foi ótimo por sinal! Cheio de ação!
Não sei o que ele quis dizer com aquilo e não sei se queria descobrir. Acelerei o passo para dentro da escola e vi pelo canto do olho que Joseph olhava Brian e negava com a cabeça como quem não acredita na cena que vira. É, eu e Brian demos show em pleno primeiro dia de aula. Tem coisa melhor que essa para começar o ano? Sintam a ironia no ar.
Empurrei a porta do banheiro com força e me apoiei numa das pias depois de atirar a bolsa no chão. Olhei-me no espelho e quase que me deu vontade de o quebrar. Qual era o problema dele afinal? Falta de sexo? Lá porque eu nunca dei pra ele nem pra ninguém, ele pensa que pode se aventurar com piadinhas sem graça? Eu podia estar fazendo um drama sem tamanho na minha cabeça, mas a ideia de que a frase dele tinha duplo sentido estava fixa. Teria que falar com Joseph. Eles são amigos e ele com certeza sabe de algo.
As aulas pareciam intermináveis. Talvez por estar tendo o pior primeiro dia de aula de sempre. Não era legal ver os seus colegas de classe rindo e se abraçando completamente alheios aos seus problemas. Quando algo assim acontece, você quer que alguém chegue perto de você e pergunte se está tudo bem. Mesmo tendo o risco de receber uma resposta grossa ou ser mandado para o sol para que possa morrer longe. A verdade é que nós podemos ser de qualquer jeito, mas sempre vamos querer alguém perto de nós que nos possa notar. Não é legal ser invisível. Eu tenho a sorte de ter amigos que se preocupam, mas só um me conhece realmente.
— Buu!
— Boa tentativa Jonas. Você sabe que isso não funciona comigo. — Falei sorrindo fraco. Eu sabia que ele merecia um sorriso melhor que aquele, mas naquele momento não dava para mais.
Se eu já estava mal antes, então tudo duplicou quando o idiota do Brian entrou na sala com a Ashley grudada nele. Ele sempre gostou de chiclete, agora eu entendo o por que.
— O que houve afinal? — Ouvi Joseph perguntar enquanto pegava minha mão carinhosamente. Dei de ombros e olhei-o.
— Você tinha razão. Ele é idiota. — Falei deixando que ele brincasse com meus dedos.
Vi que ele sorriu fraco enquanto olhava o chão. Ele estava me escondendo algo? Já naquela manhã ele estava estranho. Tinha algo errado e agora eu tinha a certeza. E mais certeza tive quando Joseph soltou minha mão depois de receber uma encarada de Brian que se sentou na minha frente. Obrigada pelas carteiras individuais. Inferno para a planta da sala, por dois lados. Primeiro? Ashley ficava em frente a Joseph que ficava do meu lado. Segundo? Brian ficava na minha frente. É, algumas coisas não mudam.
— Podemos conversar mais tarde? — Perguntei baixinho depois que o professor começou a escrever no quadro. Eu tinha me inclinado para a carteira dele para que ele me escutasse e ele se inclinou também para puder responder.
— Claro, eu e os rapazes vamos ensaiar na garagem. Passa lá no final do ensaio? — Respondeu no mesmo tom. O fato de estarmos com os rostos próximos permitia-me observar cada traço daquele rosto perfeito. Não era mais o rosto de menino que eu estava acostumada a ver, era o rosto de um homem que esbanjava beleza. Sem exageros.
Assenti em resposta e me ajeitei no meu lugar ignorando os olhares ameaçadores que Brian nos mandava. Ainda não entendi qual é o problema dele.
Eu e Joseph sempre expusemos nossa amizade a todo o mundo. Todos sabem que eu e ele somos como unha e carne, inseparáveis. E mesmo Brian e Joseph sendo amigos, ele, Brian, tinha seus ciúmes. Eu não admitia que ele tivesse ciúmes do Joe. Qual é! É o meu melhor amigo. Ter ciúmes dele é estúpido!
Sim, é verdade que eu passo mais tempo com ele, é verdade que eu falo mais com ele do que com qualquer outro e é verdade que eu confio em Joseph para tudo e com Brian eu não confio nem metade. Não é justo, talvez. Mas eu não posso dizer que vou deixar de ser amiga do Joe por causa dos ciúmes do idiota que a gente sabe quem é. Ele não é meu namorado, eu acho, por isso não tem o direito de reclamar o quer que seja.
A casa de Joseph fica a dois quarteirões da minha e a de Brian fica a cinco quarteirões. Já dá para saber qual é a que eu frequento mais né? Os rapazes, Brian incluído, têm uma banda. Muito boa por sinal. Eu e as garotas sempre os vimos ensaiar e tocar nos concertos em pequenas festas que eles vão. Existem os amigos dos amigos dos amigos, então eles sempre têm alguma festa em que podem arrasar. Eu e as garotas sempre invadimos as festas e ficamos pulando lá na frente, torcendo para que um deles deixe cair o microfone. Brincadeirinha, a gente só apoia mesmo.
Quando cheguei à casa do Joe fui direto para a garagem onde eles ensaiavam quase todas as tardes. Pensei que ele estivesse sozinho, mas estava acompanhado. Ouvi sua voz, mas não entendi o que dizia exatamente. Provavelmente estava com uma garota se pegando, já que era ali que ele as levava. Ele não levava garota alguma para o quarto, era um espaço pessoal que só lhe pertencia a ele. Eu sabia que devia virar as costas, mas a curiosidade falou mais alto. Aproximei-me da porta lentamente e consegui ouvir nitidamente o que ele dizia.
— Você passou dois meses inteiros sem lhe dar sinal de vida! Tem que contar pra ela. Eu não quero continuar mentindo! Ela não merece o que você fez para começo de história. — Ele estava irritado, era notável em sua voz. Fiquei curiosa para saber mais. Com quem ele estava falando? E quem era ela?
— Qual é cara. Ela não liberou pra mim e naquele acampamento só tinha gostosas. Eu comi a monitora desde o primeiro dia. Você sabe que foi por necessidade, Demetria tem esta coisa de continuar pura até chegar a hora certa e blá blá blá. Lamento por ser esperto e acabar com o atraso. Eu contei a você no primeiro dia cara. Somos amigos, por isso contei a você. — Essa era a voz do Brian e agora tudo fazia sentido. Aquele desgraçado vai morrer.
Eles estavam tão envolvidos em sua discussão que ninguém me ouviu abrir a porta e entrar. Eu sabia que estava nervosa, mas não queria me acalmar. Empurrei Joseph para fora do meu caminho com toda a força que tinha e ele ficou claramente assustado por me ver ali. Olhei para Brian que tinha perdido o sorriso do rosto e parti pra cima dele com tudo. Levei minhas mãos ao seu pescoço e arranhei com força. Esmurrei, pontapeei e gritei sem parar. Só me permiti respirar fundo quanto senti braços fortes me levantando do chão e me afastando do desgraçado que eu queria matar. Eu estava com nojo daquele animal!
— Demi, pára, você está descontrolada. — Mas quem Joseph pensava que era?
— Você nunca me viu descontrolada Joseph. Me solta. Eu quero esfolar esse desgraçado!
— Sua louca! Meu pescoço está sangrando! — Sua voz de incredulidade era sufocante, irritante e só me enojava cada vez mais. Gargalhei depois de assimilar suas palavras e ele pareceu ficar atento.
— É uma lembrança para a próxima vadia que você for fuder. Quando ela perguntar o porquê desses cortes pode sempre lhe contar a nossa historiazinha. O que lhe parece? Acha que ela vai gostar e ficar excitada? Talvez você consiga excitá-la como não consegue fazer comigo. — Falei debochada. Debati-me ainda mais para que Joseph me soltasse, mas isso só fez com que ele me apertasse mais contra ele. — Já mandei me soltar! Não quero suas mãos em mim Jonas! — Isso bastou para deixar de sentir seus braços em volta de mim. O calor que me aquecia vindo dele tinha desaparecido e agora só restava o calor da fúria. Se Brian queria brincar, então assim seria. Respirei fundo e coloquei uma Demetria completamente falsa em frente aos dois garotos que eu gostei um dia.
— Quer saber, melhor a gente terminar tudo o que a gente tem mesmo, seja lá o que a gente tem. Não sou ninguém para julgar quando fiz o mesmo. — Falei sem olhar Joseph. Ele saberia que eu estava mentindo.
— Como assim? — Perguntou Brian. Além de traidor, desgraçado, idiota, imbecil, cachorro vira-lata também era lento de raciocínio.
— Você entendeu. Ou quer que eu diga com as palavras todas que também estive com alguém?
— Acabou de dizer Demetria. Esteve com alguém como assim? — Joseph estava apenas escutando olhando para o chão enquanto as mãos permaneciam nos bolsos dos jeans escuros. Traidor.
— Você sabe. E não me pergunte como foi. Gosto de guardar os detalhes quando a experiência é boa. — Falei sorrindo debochadamente ao ver a cara de retardado que ele fazia. Ele gostava de dar, mas não gostava de receber. Temos pena.
— Já ouvi o suficiente. To vendo que se divertiu também.
— Sinceramente, estamos no mesmo barco. — Disse indiferente.
— Depois a gente conversa. — E com isso saiu batendo a porta. Agora era comigo e com Joseph.
— Dem…
— O que vai dizer Joseph? Que não queria mentir pra mim? Que não queria me magoar porque sabia que traição é a única coisa que eu não perdoo? O que vai dizer afinal? Nada! Você não vai dizer nada porque não tem desculpa possível para o que você fez comigo. — Aproximei-me dele lentamente e ele finalmente levantou o rosto para me olhar nos olhos. Parecia um garotinho abandonado. — O pior não é o peso dos chifres que o Brian me colocou, o pior foi que você, e justo você, mentiu para mim todo este tempo. — Passei minha mão por seu braço, subindo lentamente, fazendo o contorno dos seus músculos fortes por conta da academia. — Eu nunca fui perfeita. Sempre fui a garota problemática, mas você era o único que me entendia realmente.
— Por favor, não fala no passado. Por favor.
— Não tem como falar no presente. Não agora. — Falei desviando meu olhar de seus olhos cor de mel, agora marejados. — Você fez merda. Você andou mentindo para mim durante dois meses inteiros. Eu sei que ele é seu amigo e companheiro de banda, mas eu era a sua melhor amiga. — Segurei seu rosto pela mandibula e virei-o para o lado contrário do meu, de modo a que sua orelha e pescoço ficassem à minha disposição. Aproximei-me e beijei sua bochecha. Uma das lágrimas que eu finalmente tinha permitido deixar escorrer ficou em seu rosto e ele quis olhar pra mim no mesmo instante. Impedi. — A única pessoa em quem eu realmente confiava foi a que mais ajudou a que esta merda acontecesse. E sinceramente eu não sei o que fazer depois de sair por esta porta fora, mas o que eu posso dizer é que o último ano, aquele que você sabe que eu tenho tanto medo, começou da pior maneira possível.
Virei as costas e deixei-o lá sozinho. Ouvi-o chamar meu nome e fiz-me de surda. Não conseguiria lidar com ele agora.

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